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segunda-feira, 1 de agosto de 2016

A Zona Jovem de outros tempos



Ontem voltei a um lugar que é também uma parte de mim. Há 14 anos que não ia à praia a Melides. Tenho lá ido, claro, vi as transformações, mas fazer praia, nunca mais fiz desde que o meu mais velho nasceu. Ainda recordo as ondas enormes, as loucuras dentro e fora da praia. Nem sei bem porquê, lembrei-me desta música . Aquela era a nossa danger zone. Éramos autênticos aviões a experimentar os nossos limites. Uma dog fight contra nós próprios à descoberta da nossa identidade. Tempos irrepetíveis e que nos ensinaram muito, a base do que tivemos, cada um, que aprender depois. 
Dói-me, como deve doer a todos, o que nos fizeram à praia. Não falo das barracas que hoje seriam um atentado à natureza e à paisagem, mas enquanto as praias da zona prosperaram a olhos vistos, Melides parou no tempo e na nostalgia. Parece que já nem as ondas querem ser um grito de liberdade, a rebeldia que caracterizava o lugar e que aprofundou muitos laços de amizade que duram até aos dias de hoje, como se tivesse sido ontem a última noitada. O que foi, não volta a ser, mas Melides merece investimento e recuperação, merece ser colocada no futuro, para que os nossos filhos possam saber que gerações de Grandolenses se fizeram ao mundo, por ali e que muito mais do que a fama que lhe ficou, de lugar de escaramuças, o que realmente sobrou daquele tempo foram as amizades e as recordações conjuntas, as gargalhadas e o que passámos, juntos. Na vida é isso o que mais importa,  o que fica, o que nos sobra por cima de tudo o resto, por isso, continuo a achar que Melides merece mais! 

sábado, 30 de julho de 2016

Sintonizada comigo!



O festival já tem 17 anos mas, na verdade, nunca tinha lá ido. Talvez porque o seu começo foi já depois de ter iniciado a minha vida activa, como enfermeira ( a respeito disso, parabéns a todos os do Grande XI curso da ESEBB porque fazemos hoje 18 anos de curso! ) e estava longe. Quando regressei ao Alentejo, comecei a perceber que as noites de FMM eram sempre demasiado"animadas" para o gosto de quem trabalha num serviço de urgência. Apesar de algumas colegas me dizerem: vai! vais adorar. Tem mesmo a tua cara - nunca me decidi a lá ir, achava que talvez já fosse "demais" para mim. Há certas festas que já não aguento ! Decidi-me a ir ontem, a convite de uma amiga com um ritmo de vida muito semelhante ao meu. Fui e adorei! E não é que aquilo tem mesmo a minha cara?!!! Há coisas para as quais algumas palavras não chegam. Deixo-vos um video de publicidade do ano passado, que me parece capta muito mais a essência da coisa do que os spot`s publicitários deste ano. É ver e ficar com água na boca para lá voltar, todos os anos!










domingo, 24 de julho de 2016

Saudável acima de tudo

Durante as férias nunca sei muito bem a quantas ando ( bem na verdade eu nunca sei muito bem a quantas ando, nem mesmo quando estou a trabalhar, por causa dos turnos) . A numeração mensal não é difícil, porque para saber que turno faço, tenho que saber a quantos estamos, mas os dias da semana são sempre um enigma para mim. Hoje sei que é Domingo porque é o dia da Ultra Maratona Atlântica e os miúdos foram com a tia assistir à chegada em Tróia, pelo que tenho tido o dia inteiro só para mim. Praia ao Domingo não é o meu exercício favorito, estou mal habituada, e detesto praias a abarrotar de gente e, ou tenho boa companhia ou então prefiro nem ir. Têm estado dias muito quentes este fim de semana e cá em casa não há piscina ( essa infelizmente é amovível e ficou na casa dos netos) assim o engenho e o calor fizeram-me arranjar uma geringonça com a mangueira para tomar o duche no quintal e manter a temperatura a níveis médios ( sendo que a esta hora ainda estão uns módicos 32º dentro de casa)  Hoje prevêm-se banhos no quintal até mais ou menos às 10h da noite. Mas o calor, para além de obviamente... calor, traz também os raios Ultra violetas e eu sinceramente embora só goste de praia com calor não gosto dela às horas de maior exposição. Além disso andam por aqui uns sinais a mudar de forma e consistência o que me vai dar que fazer depois das férias: ir mostrá-los ao dermatologista. Entretanto ela, que detesta "besuntisses" é cremes e mais cremes, porque tem que ser. Entre "besuntisses" e aspecto de velha, prefiro as "besuntisses"( ainda ando a curtir o facto de me terem dado 20 e tal anos - é verdade que o sr ia ser operado aos olhos, mas isso não interessa nada!!!!) . Ainda por causa desta coisa dos sinais ( e dos meus gatos, conversa e mais conversa foi coisa que não faltou ontem) falaram-me nesta publicidade e vim à procura dela. Realmente a criatividade é uma coisa extraordinária e esta está mesmo muito boa : um alerta em jeito de mimo.





E agora vou refrescar-me na mangueira para depois ir comprar leite de soja que quero experimentar a minha iogurteira nova.Estou a apostar, em grande, na vida saudável!



segunda-feira, 4 de julho de 2016

A Nação e a sensação de pertencer

As publicidades excelentes,  transmitem-nos emoções

Vale a pena ver. Valeu a pena vê-los. Fizeram-me lembrar os nossos lobos num campeonato que fiz questão de seguir, há alguns anos, porque o sonho de alguns pode ser a felicidade de muitos. Tenho pena que tenham ido para casa hoje. Grande parte da magia deste campeonato foi a eles que se deveu. Porque o futebol e o desporto também é isto: motivação, amor ao que é nosso, a beleza de um sonho realizado por quem se esforça por ele. Acredito que se devam sentir orgulhosos. Eu sentir-me-ia. Saber que a vontade e o esforço podem dar frutos mesmo contra quem não faz mais nada da vida a não ser isto. Parabéns terra do gelo. Um dia ainda gostava de vos ir conhecer.

Recordando o Hino mais sentido que já ouvi até hoje.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Das superiores valências da família

Acordo às 17.30 a pensar que é bem mais cedo e na lenta preguiça de quem tem o relógio interno avariado deixo-me estar a alongar ( que é uma forma bonita de dizer que pareço um gato a espreguiçar - me). Olho finalmente ao relógio e descubro que estou novamente atrasada. Felizmente o pai António tem aquelas premonições fantásticas e telefona na altura certa: Quem vai buscar o menino? Podes ir tu pai? Acordei agora.

Quanto não vale um avô? Não posso dizer, que não conheci nenhum mas sei exactamente o valor de uma avó e este avô é para os meus filhos tanto ou mais do que foi para nós, as filhas. É o meu verdadeiro braço direito desde sempre.
Apesar das horas tardias incrivelmente estes dias têm tendência a render-me em trabalho, quando descanso, e foi o que se passou. Pus a carne a marinar mais cedo, em vinho tinto, limão, alho, coentros e louro, com um toque de pimenta e sal, que não tenho jeito para coisas demasiado elaboradas e fui tentar terminar o jardim. Afinal os 150 kg de pedra não chegam e vou precisar de mais. A mesa aguarda agora que a lixe e a pinte que o verão passado e a cera das velas pela noite dentro deixou marcas que têm que ser tratadas. Falta o sombreiro: o do ano passado ficou feito em fanicos nas primeiras chuvas de Outono. Falta a horta.

Pelas minhas previsões lá para o fim do Verão sou capaz de ter a esplanada pronta, eheh. O pobre do anão também está a precisar de nova pintura e assim me vou entretendo entre lavar e estender roupa. Para não variar os planos do jantar saem furados. O que era suposto virem a ser costeletas panadas torna-se numa nova invenção minha já que os ovos caseiros estavam estragados ( confio cegamente nos truques antigos e ovos que bóiam são para jogar para o lixo) . Farinha de milho, envolve-se bem e tudo para o azeite. Um puré de batata e o comum, um adorou o outro detestou: o normal! Como somos a trupe da sopa, está sempre a refeição salva em caso de desgosto. Depois disto tudo passar roupa a ferro que o mais velho vai de fim de semana grande com o pai para Lisboa. A esta hora olho para as fotos do quintal e penso que não ficou mal de todo e no que posso melhorar.

A Marilyn repousa ao meu lado ( estou a adorar o livro - curioso como os nascidos nos mesmos lugares têm memórias que poderiam chamar-se comuns: é quase como se estivesse a ouvir a minha avó a contar uma qualquer estória das do tempo dela e isso dá -me um conforto que não consigo explicar e leva-me a querer saber mais da estória que se conta, bem contada, no livro) mas não sei se a meia benzodiazepina me vai deixar ler a seguir. É que, infelizmente, embora esteja cansada, o corpo provavelmente vai querer ir trabalhar outra vez esta noite, apesar de amanhã ser realmente feriado para mim. Rotinas são óptimas e a falta delas arrasa-nos com o tempo livre. Boa noite!

sábado, 14 de maio de 2016

Música é meio caminho para a cura

Hoje, vá-se lá perceber porquê foi um dia em que me ri bastante . Já não me divertia assim no trabalho há algum tempo, apesar do dia ter iniciado mal, por falta de planeamento do que seria  o meu dia de hoje, no dia anterior.  Estou bastante mais focada, embora ainda me invadam ondas de cansaço que permitem lacunas ao nível do planeamento. Fico sempre desiludida comigo quando acontece, mas parece que já vou conseguindo ultrapassar a frustração de forma mais leve. Daí ter começado a rir a meio do dia e ter levado a boa disposição comigo até esta hora a que me deito.

Vou dormir com uma música no pensamento, uma que sempre que a ouço me traz um sorriso aos lábios e vontade de dançar. Aposto que nem adivinham qual é   

terça-feira, 3 de maio de 2016

Quando apetece viver de novo

Provavelmente será dos dias de sol. Qualquer pessoa sabe, hoje em dia, e está descrito na literatura, que o sol renova o nosso estado de espírito, levando para longe , pelo menos nos próximos meses, o estado depressivo em que os portugueses ( pelo menos os da dita classe média) se habituaram a viver sobretudo à custa dos muitos esforços que têm que fazer para manter o orçamento equilibrado. 

Não é novidade para ninguém que os últimos sete anos têm sido difíceis para mim. Costumo dizer que as derrotas nos ensinam muito mais do que as vitórias e saber perder é uma virtude, mas não é fácil. 

Tenho aprendido muito, sobretudo ao nível do auto-controle e dessa "ciência" ou arte em que, me parece, os portugueses ainda são fracos, que é a de saber consumir sem dar grande importância e aprendendo os truques com que a publicidade nos pode iludir. Digo por graça ( e papá não fiques sentido, que esta é uma das minhas muitas piadas que tu por vezes não entendes) que estou a ficar mais forreta que o meu pai e que, quando chegar à idade dele, vou ser pior que o tio Patinhas, essa personagem da Disney, que entre muitas, fez parte dos meus encantos e literatura de infância ( sempre adorei banda desenhada). 

O IRS está entregue na tentativa por vezes infrutífera de me desabituar do grande defeito português de deixar tudo para a última hora ( aprendi isto sobretudo à custa dos 11 anos  num serviço de urgência, quase sempre a trabalhar nos limites mínimos de pessoal necessário, e em que ao mínimo descuido tudo pode "descambar" se não se cuidar para que o que deve ser feito o seja atempadamente). 

Sou adepta das compras on-line, não porque não seja a favor do comércio tradicional, muito pelo contrário, mas porque consigo fazer um melhor controlo dos gastos - depois das compras feitas, se o preço não for satisfatório pode sempre voltar-se a trás e verificar tudo o que é supérfluo, o que não dá muito jeito quando já estamos na caixa do supermercado. Além disso poupa-se em gasolina, que se tornou, apesar do preço do petróleo estar a baixar, num produto de luxo, mais uma vez devido à carga fiscal que somos obrigados a suportar. Mas para que tudo corra bem é necessário estar sempre em cima das transações e saber reclamar os enganos, pedir explicações e estar atento, sempre com uma grande dose de paciência e boa disposição, para não tornar a vida num corrupio de irritações que não me fazem bem à saúde, agora que sei que sofro dos males da ansiedade ( quem diria). 





Por causa dela (a ansiedade) o meu conforto tem sido a minha maior prioridade, sendo que, para me sentir confortável é primordial que os meus filhos sejam felizes e estejam bem. No entanto eu não me esgoto neles. Por causa disso, foi urgente fazer mudanças na minha vida que até agora se têm revelado positivas. O meu tempo de serviço de urgência esgotou-se, embora o doente crítico continue a ser a minha "paixão" em termos profissionais. Foi assim que comecei com os prematuros e as crianças e é assim que quero continuar, embora agora mais dedicada aos adultos. Defini para os próximos tempos  3 objectivos, pessoais e profissionais. Um iniciei-o há pelo menos 2 semanas ( e não, não vos vou dizer quais são, reservo-me o direito de me resguardar contra a frustração que não me faz sentir confortável) e por agora não está a decorrer com a celeridade que pretendia mas talvez seja normal que assim aconteça. Os outros dois inicio-os hoje com data prevista de concretização para Setembro. Já tenho mais objectivos em vista, claro! São os objectivos que nos mantêm vivos e motivados. Sem objectivos a vida torna-se num amontoado de dias no calendário sem qualquer significado. A vida é demasiado rara e preciosa para ser vivida assim. Desejem-me sorte...    










foto tirada e trabalhada por mim, junto ao "novo" resort beach and golf  na herdade do Pinheirinho 






sexta-feira, 29 de abril de 2016

As tantas diferenças que existem num país de grandes cargas fiscais

Talvez seja a preocupação com o preenchimento do IRS, que me habituei a fazer sozinha há já alguns anos ( e que se simplificou bastante com esta história das facturas on -line - peço desculpa a quem não o ache mas eu, como "funcionária pública", sinto que foi um dos poucos benefícios que me calharam neste novo paradigma) ou talvez seja apenas a forma de ver de quem reside fora das grandes metrópoles deste país. Nesta história da Uber/ Taxistas não posso deixar de estar do lado dos taxistas. Primeiro porque as marchas lentas que farão, irão prejudicar zero a minha vida ( e esta é a forma mais umbilical de ver o problema) e depois porque o muito que vejo escrito sobre estes profissionais, por estes dias, tanto nos blogs, como na imprensa e até na televisão - com grandes directos como se fosse um problema grave deste país -  mais parece um daqueles sketches do taxista que a Maria Rueff fazia aqui há alguns anos. Compreendo que nas grandes cidades haja de tudo um pouco e nesse aspecto, por vezes a concorrência é um forte incentivo à melhoria dos serviços. O que eu não consigo compreender é a concorrência desleal. Passo a explicar: Os taxistas que conheço não são pessoas com mau aspecto nem com viaturas que mais parecem saídas de um filme histórico. O táxi, por aqui, serve para fazer viagens de longa distância ou transportes de pessoas idosas com mercadorias e/ou crianças, substituindo a insuficiente oferta de transportes públicos. São os taxistas que muitas vezes transportam as crianças que vivem nas aldeias mais pequenas que, para virem à escola, são transportadas por estes profissionais, pagos pelas câmaras municipais. Para isso têm que ter ( e pagar) licenças especiais. São eles que tantas vezes transportam as pessoas mais idosas quando vêm às compras, ao hospital, aos serviços públicos, nomeadamente aos correios para receberem a mísera reforma. Enquanto enfermeira num hospital periférico assisti tantas vezes a pessoas com a profissão de taxistas que são as únicas formas de transporte ( cada vez mais difícil de obter) desde os montes mais remotos até ao hospital, ficando horas a fio à espera dos seus clientes, tantas e tantas vezes de taxímetro desligado porque não existe mais ninguém que os transporte. Sabem-lhe as doenças, a história clinica, a história de vida e ainda funcionam como o familiar que não existe. É caro o serviço? é sem dúvida, mas por aqui não existem grandes centrais de táxis, são trabalhadores por conta própria que trabalham tal como eu domingos e feriados pagando do próprio bolso a manutenção da viatura, as licenças, os impostos, e tudo o que por agora se inventa para servir de taxa. Não me admiro que se revoltem, sobretudo porque a concorrência que agora lhes aparece não necessita de licenças especiais, esquiva-se ao pagamento dos impostos e ainda é vista como um serviço moderno e inovador. Nestas condições de concorrência qualquer um é moderno e inovador. Reparem que não estou contra a Uber, que só consegui perceber o que era depois de um taxista me explicar, já que não percebia o porquê de tanta raiva. Depois foi fácil perceber: é quase a mesma coisa que ser funcionária pública, licenciada, ganhar abaixo do preço tabelado para um licenciado do estado, ser mãe solteira com dois filhos a cargo e virem-me dizer que não tenho direito a abono de família, enquanto outros trabalhadores por conta própria declaram o ordenado mínimo, tem receitas muito superiores ao que declaram e ainda conseguem benefícios socias. É a pirâmide da lógica, virada do avesso. É a grande diferença entre o país real e as duas grandes metrópoles do país. É ter que ouvir todos os dias de manhã na rádio o trânsito  na ponte da Arrábida e pensar que na Arrábida o que fazia sentido era uma ponte sobre o rio Sado, que diminuiria em muito a distância daqui até à cidade grande mais próxima e o preço da viagem, desde que a travessia fluvial do Sado se transformou num transporte de luxo, ou então, é só uma forma menos centralizadora de olhar para o país que temos...
 
Concorrência sim, mas com igualdade de circunstâncias e de carga fiscal! Taxistas, estou convosco!
 
 
 

segunda-feira, 28 de março de 2016

Brindes de Páscoa

5 dias que souberam a pouco. Um livro finalmente acabado ( acho que nunca tinha demorado tanto tempo para acabar de ler um livro e não foi por não gostar de o ler) outro começado. Arrumações em casa, torneios desportivos com os miúdos, festa de família , cantorias, doces e boa comida. Um novo começo com a sensação que não descansei o suficiente e com vontade de ficar mais uns dias. Uma horta a renascer. É a Primavera no seu âmago. Entretanto as bombas vão rebentando pela Europa e nós, para tristeza minha, vamos mostrando medo. A vida não pode e não deve deixar de se viver só porque uns quantos loucos não concordam com o modo como a vivemos. Ainda assim agradeço todos os dias o jardim onde nasci e não me ter decidido a ir embora quando o podia ter feito. Talvez estivesse melhor, sim, mas a qualidade do que ofereço aos meus filhos, bem pesadas as coisas, continua a ser bem melhor por aqui. É que o dinheiro tem menos valor do que se pensa, na vida!
 
  

quinta-feira, 3 de março de 2016

Histórias de liberdade



Num tempo em que tanto se fala do Alentejo, ler a crónica do Vitor , trouxe-me à memória o meu Alentejo. Sou uma Alentejana atípica, também, uma suposta privilegiada, filha de funcionários públicos, mãe professora, tal como a do Vítor, que durante anos partilharam o mesmo piso da escola primária com salas de aula frente a frente, pai funcionário público, chefe de uma repartição de finanças. Também adoro a minha terra, foi ali que cresci e fiz amigos, característica de quem, bem ou mal, se conhece desde há muito tempo. As pessoas estão lá e são quase sempre as mesmas é inevitável não criar laços, alguns indissolúveis. Saí mais cedo, aos 15 anos, numa fuga para a liberdade. Irónico, que uma terra conectada com a liberdade tivesse sido sentida por mim durante tanto tempo como uma prisão. Talvez ainda o seja, um pouco. Super-protegida, sei exactamente o significado das palavras politicamente incorrecta! Guardo desde muito cedo as histórias contadas, os segredos, a incompreensão das coisas que não podiam ser ditas, nem feitas. Porquê? porque não! Porque não fica bem, porque há assuntos que não são para raparigas, lugares que não são para raparigas, coisas que as meninas não fazem, sobre as quais não se fala para não captar a atenção. Logo eu, que nasci com cromossomas extra para a igualdade e a justiça. Sempre tive a mania que gostava de ser rapaz, agora talvez já se perceba porquê. Tive à minha volta mulheres fortes. Mulheres que, tal como descreve o Henrique Raposo, desde muito cedo tiveram um instinto protector nato, uma força de carácter que lhes reconheço à distância e que tomei como exemplo, com a diferença que nunca perdi esta mania rebelde de dizer o que penso e se não digo, ficam-me a corroer as entranhas até à explosão total. Guardo com carinho a lembrança de uma antiga trabalhadora do meu avô, que foi rendeiro de uma  propriedade, que ao perceber o meu apelido, no hospital, me contou que o meu avô a tinha trazido de propósito ao médico, de carro (um luxo na altura), quando teve um acidente de trabalho, durante a ceifa. Lá estava a cicatriz enorme numa das mãos para o comprovar. Sei também que não eram todos assim, os patrões, e enchi-me de orgulho de a ouvir contar. As perseguições, as delações, a PIDE, os abusos de poder, tudo histórias que povoaram o meu imaginário de infância. E a agressividade latente, nos anos do pós 25 de Abril, que fazia de nós crianças, meras espectadoras sem noção e às vezes vitimas de pequenas vinganças e maledicência. O verão era o meu tempo de liberdade, livre da escola e da necessidade de ser um exemplo: corria descalça pelas dunas e pelos caminhos de areia, como se não houvesse amanhã, em praias que naquele tempo eram praticamente desertas, sem nadadores salvadores, às vezes sem ninguém, só os pescadores e o mar. Da adolescência guardo também na lembrança as sessões históricas de "porradaria" só porque sim, de um Alentejo litoral que agora já vai aprendendo a conviver. O papel da mulher, esse, ainda se mantém  num equilíbrio periclitante entre a decência e a liberdade de expressão, às vezes até a liberdade de pensamento. Como se diz e bem nesta crónica também da sábado, infelizmente (acrescento eu) a liberdade tem um preço. Há quem tenha pago um preço bem alto por ela .





  

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Amanhãs

Aos poucos as coisas vão-se organizando nas novas prateleiras que a vida me trouxe. Já não me assusto tanto com as novidades como até aqui. O Baudolino olha para mim, de uma das prateleiras, como que a suplicar: Lê-me até ao fim para começares uma nova aventura. E eu, em pensamento respondo-lhe que sim , que tenho que o fazer, mas a minha pirâmide de prioridades não permite que largue outras para lhe dar prioridade, já, agora, pelo menos não conscientemente, que tenho tantas saudades de ler com vontade... Ainda assim a sensação de peso vai aos poucos ficando mais suave. Estou ainda lenta a voltar àquilo de que realmente gosto.  E amanhã é mais um dia...



domingo, 17 de janeiro de 2016

À procura dos sentidos

Sou como as 24 horas deste planeta. Uma parte de mim é dia, outra é noite. O Janeiro desperta-me o lado lunar. Às vezes não é bonito de se ver. Garanto-vos, pior é de se sentir. Por estes dias busco em mim tudo o que aprendi sobre sobrevivência, só para me manter fora do eclipse. Por vezes consigo, noutras o esforço tem que ser maior. Ainda assim estou muito satisfeita comigo. Depois de uma semana que foi uma verdadeira prova de resistência, a terminar num sprint, consegui cumprir com o prometido aos miúdos. Só isso é o bastante. Um a um, os objectivos para o primeiro trimestre estão a ser atingidos. E eu satisfaço-me por conseguir distinguir o essencial do acessório. Às vezes ainda me perco, mas em pouco tempo regresso sã e salva e agradecida, porque tantas vezes perdida é a melhor forma de encontrar o que sempre se procurou.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Acredita, mas não confies

Nos últimos dias têm me vindo à memória pormenores que julgava perdidos para sempre. A memória tem destas coisas e provavelmente a minha não deve ser diferente da de  muitas  outras pessoas.

Lembrei-me do molotov enorme que me fez vomitar quando era criança e ficar anos sem comer do dito, por achar que não gostava. Lembrei-me da pequena girafa que acompanhava o meu mais velho para todo lado e que depois da primeira mudança nunca mais vi, lembrei-me da última vez que apliquei esta frase, que me orientou os dias durante muitos anos e que por desespero me marcou o futuro. Acredita, mas não confies.

Pergunto-me se será um bom conselho. Questiono-me tantas vezes sobre os princípios que me regem que acredito já que não há fórmulas secretas. Há decisões e consequências.

Há, de certeza ainda em quem se possa confiar, a questão é que só vais sabe-lo na hora em necessitas que to demonstrem e nessas alturas nem sempre as decisões tomadas são as esperadas. E isso não significa que não sejam as melhores , mas só vais saber depois, às vezes muito depois.

É na memória que nos baseamos para tomar decisões. Quando ela falha é lógico que o sentimento de insegurança tome conta de nós. A insegurança paralisa, a vida fica em standby ( e ainda assim gasta energia como acontece em qualquer aparelho eléctrico) mas continua.

Isto tudo porque estou em fase de reflexão.  Li em algum lado que Janeiro é a segunda feira do ano. Para mim talvez seja o Domingo. Tempo de reflexão para o trabalho que aí vem. A celebração da palavra em toda a sua dimensão. Objectivos traçados, metas a alcançar, sonhos delineados. Acredita, mas não confies. Faz por merecer.

E hoje sei que são muito poucas as pessoas que se dão ao trabalho de querer merecer a nossa confiança. Isso não nos mata, apenas nos torna mais fortes e gratas por aqueles que demonstraram que são dignos da pouca capacidade que temos em confiar, continuarem a querer acreditar.

domingo, 3 de janeiro de 2016

Estabilidade lógica

Hoje foi dia de Sporting. Enquanto regressávamos, ensonados, olhos pregados na estrada ( que é muito bom lá ir, um dos melhores anti-stress  que conheço, mas custa um bom  bocado voltar de noite, com o corpo cansado da estafa e a voz rouca da cantoria e da gritaria) ouvimos esta música na rádio.

Adoro-a. Não sei porquê foi como se me abrisse no peito um corredor de memórias. Estou a voltar de novo ao lugar de onde parti para me encontrar. Isso, a meu ver é muito bom.

PS:  É este ano que vou ser  campeã outra vez,  caramba!

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Tempo de desejar

Aqui há uns anos se me dissessem que iria ter anos assim, nem acreditaria. Mas tive e passaram. Se me dissessem que me sentiria assim, feliz, por estar em casa, num dia de  festa, ficaria incrédula, mas aconteceu. Às vezes é necessário conhecer bem o sabor da perda para reconhecer o melhor dos paladares.

É neste sentido, não esquecendo o que perdi, mas reconhecendo por isso o que posso vir ainda a ganhar, que vão os meus desejos/planos/ projectos para o ano que agora chega.

O meu ano chegou em paz, a fazer uma das coisas que melhor me faz ao corpo e à alma, neste momento, descansar.

Começa ( 2016) com algumas perdas que me lembram como é necessária força para acreditar que tudo tem um propósito e que podemos aproveitar os maus momentos para nos fortalecer. Das perdas se constroem os ganhos, saibamos nós dissecar as aprendizagens que nos são oferecidas quando as situações não vão ao encontro dos nossos desejos.

Espero acabar o que comecei à alguns anos e já deveria ter acabado. Está - me a provocar gastos e frustração desnecessária - a especialidade.

Desejo mais tempo para mim, para a minha família, para os que me são queridos e me fortalecem com a sua presença. Só esses valem a pena. Só aqueles que são capazes de ficar, nos bons e nos maus momentos, merecem o melhor de nós.

Poupar, para não voltar a deixar apanhar-me no despesismo alheio.

Exercitar a minha memória e a minha atenção, focar-me no essencial e reaprender a programar e planear com sentido - demasiados anos de serviço de urgência, burnout e excesso de trabalho destroem a nossa capacidade de pensamento estruturado, simples e eficaz.

Voltar a redescobrir os meus gostos particulares e peculiares, de que sou eximia defensora embora existam alguns que, sei-o agora, ficarão sempre comigo, mesmo que a memória teime em querer apagar tudo.

Dar todas as ferramentas necessárias para que os meus filhos saibam decidir com clareza e percebam a importância disso no seu futuro.

Tudo isto resume o meu desejo essencial desde que sou miúda. Quando vejo um avião, uma estrela cadente ou engulo à pressa as 12 passas que trago apenas porque a tradição assim o prevê: o que eu quero mesmo é ser feliz. Eu só não sabia é que a felicidade não é um estado.é uma escolha. Agora, já sei! Vou fazer por escolher ser merecedora da minha felicidade.

Feliz 2016!

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Estamos mais pobres

Ficamos mais pobres quando isto acontece. Ainda bem que há quem olhe para o problema com vontade de o resolver. Gosto de pessoas assim. Eu própria sou um pouco assim também. Lia um destes dias, a propósito do que aconteceu no sol que, se queremos salvar os jornais, temos que os comprar. 

Percebo isso. Mas percebo bem melhor a parte que me toca. Fui sempre leitora assídua da sábado ou da visão, alternadas, dependendo da capa semanal. Também cheguei a comprar uma outra ( de que já não me recordo o nome) quando o Vítor lá escrevia ( é sempre engraçado ler algo escrito por alguém que se conhece, para além do profissional) . Fui leitora assídua do expresso. 

O meu espectro de leitura aumentou com o galopar da internet. Depois chegou a crise. Desde 2010 que os jornais e as revistas entraram na parcela de despesa dispensável, depois os livros,  a seguir os espectáculos ( foram a minha última grande batalha, mas acabei por deixá-los cair , também a eles, com o risco de inverter as prioridades) . 

A verdade é que a internet compensa-me muito esta falta que sinto de saber o que se passa à minha volta. Por vezes, quando esbarro num artigo que me sugere o pagamento da assinatura para que possa ler o resto, ainda dou por mim a pensar se vale a pena. Mas depois a calculadora que me foi incutida na cabeça obriga-me a recusar essa despesa. Um pouco aqui, um pouco ali e quando se percebe gasta-se muito mais do que se deve, ou pode. 

 Assim ficamos mais pobres porque menos esclarecidos. Um mal necessário na conjuntura actual, mas que deve ser combatido. A verdade é que a liberdade de expressão advém muito do conhecimento que adquirimos. Ler algo e o seu contrário ajuda-nos a decidir, a tomar decisões, a definirmos-nos como cidadãos . O que somos, o que queremos ser. Procuro de todas as formas possíveis manter-me a par. Perceber o que pensam e porque pensam outros assim. 

Agrada-me que se procurem soluções. A informação é o maior e o melhor serviço público que se pode prestar. Deve ser feito por quem o sabe fazer. Ser cidadã permite-me que emita a minha opinião, mas a verdadeira informação deve ser dada por quem de direito. Eu só pego naquilo por que me interesso mais, mas a vida em sociedade é feita de muitos interesses e todos eles relevantes para alguém. Só aceitando isso ficaremos mais tolerantes. Só querendo saber, importando-nos com os outros, partilhando opiniões e saberes podemos evitar que outros sofram o mesmo que nós. 

Be free my friends

Viciada em coisas doces

Por agora, preocupada em desfazer os excessos do Natal. Como muitos sou viciada em açúcar e vê-lo transformado em tantas formas diferentes, agradáveis à vista não me permite resistir. Até porque, resistir sempre, a tudo, não me parece mentalmente saudável. Abusa-se, sabendo que depois é necessário voltar ao lugar. Até porque demasiados excessos também me deixam em sofrimento. Sou adepta ferrenha da moderação e quando me excedo desencadeio processos de auto-controlo que roçam o patológico. A minha vida resume-se a uma linha curva que ora supera, ora se inferioriza em relação ao rígido equilíbrio que , confesso, acho muito difícil de manter.  Pergunto-me se existirá alguém perfeitamente equilibrado em todas as ocasiões e respondo a mim própria que isso deve ser muito enfadonho.

O meu melhor substituto do açúcar é a fruta ( frutose). Está na altura de usar e abusar para não sentir a irresistível vontade de comer um bolinho. Depois passo às sopas em forma de sumo ( vulgares detox) e finalmente , quando olho ao espelho e percebo que o corpo não está a ir ao lugar como eu queria, lá me mentalizo que tenho que aumentar o esforço físico. É sempre igual. É sempre a mesma fórmula. Tem dado resultados, não me posso queixar. Talvez tenha a sorte de ter um metabolismo razoavelmente favorável. Talvez seja a mentalização, que em mim funciona bem.

Depois dos últimos anos, dou graças por ter a cabeça que tenho, a força mental que me permite resistir. Acabei por comprovar na 1a pessoa aquilo que passo o tempo a dizer aos "meus doentes" : É a cabeça que vence as maiores batalhas. A força de vontade é a nossa maior aliada. O resto são só obstáculos para comprovarem essa mesma força. 

( e devo ser a única alentejana à face da terra que não gosta de pêra manca)

sábado, 26 de dezembro de 2015

Um Natal completo

O tempo passa a correr ( todos sabemos de cor esta frase feita). O que é certo é que passa mesmo e outro Natal se passou. Mas este, foi um Natal diferente. Há quase tantos anos como aqueles que tem o meu filho mais velho, que não tinha um " Natal completo " . Sempre entre turnos, entre desgraças e  tristezas que não sendo minhas, me entraram pela porta da vida para que tivesse, também eu, um lugar dentro delas.

Não sei porque acontece mas eu gostava de saber qual o cruzamento cósmico que faz mais gente partir nesta altura. Provavelmente será apenas a nossa consciência que está mais virada para o bem, a felicidade e a paz, nesta altura,  e sempre nos entristece mais a partida, numa época em que seria suposto celebrármos a família. Ainda assim, acontece muito. Às vezes a fé ajuda a justificar e a manter a paz de espírito, qualquer que seja a fé.

Este Natal pude fazer parte da vida daqueles a quem chamo família e isso é um bem que pouca ou nenhuma descrição consegue ter. É o que é. Sentimo-nos sempre mais completos quando nos identificamos, quando fazemos parte, quando estamos lá. Isso não há dinheiro nenhum no mundo que pague. Não há nada que substitua a presença daqueles que a gente ama. Por mais que queiramos justificar, fica sempre a faltar uma parte de nós, quando não nos sentimos em casa. O amor é a mais bela parte de nós e sem ele nada do que por cá fazemos poderá ter algum sentido, sendo que esse amor pode materializar-se de muitas formas. É por isso que tenho orgulho em ser mãe, enfermeira, filha , irmã, tia, sobrinha, prima, amiga e todas as outras formas possíveis de distribuir um pouco de amor ao meu redor.

A vida é uma estrada enevoada que não nos mostra o lugar onde nos vai levar. E ainda bem!

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Como salvar uma vida

Tinha preparado um post todo lindinho sobre a  festa de Natal da Ludoteca mas depois a vida tem destas coisas e decidi falar sobre uma coisa que me tem afligido nos últimos dias ( e as festas da Ludoteca - ainda bem - não são coisa rara e posso sempre falar sobre elas depois. Sobre isto talvez se perca o timing perfeito da reflexão) . 

Morreu um jovem em S. José. A morte é uma coisa não rara para quem trabalha em meio hospitalar. O que é mais doloroso é a morte que poderia ter sido evitada. É aqui que começa o " jogo perigoso". À partida, muitas mortes podem hoje ser evitadas. Mas só à partida. São tantos os factores que se cruzam neste jogo entre a vida e a morte que toda e qualquer decisão pode ter consequências fatais. Todos nós, que fazemos da saúde dos outros a nossa forma de "ganhar a vida" carregamos esse peso decisório nos ombros, todos. Temos consciência e temos responsabilidade. Temos até várias consequências na nossa vida pessoal, por demasiadas vezes pormos a vida dos outros à frente da nossa vida.  Esta e tantas outras mortes, talvez menos mediatizadas porque não num hospital de grande envergadura e na capital, foram consequência, não tanto de mau profissionalismo, mas sobretudo de uma má gestão dos poucos recursos que dispomos ( como país, sim, habituem-se, apesar do SNS ser um pequeno diamante, é um diamante que se alimenta de um fraco filão). Os profissionais de saúde não são voluntários, embora se disponibilizem tantas vezes a fazer mais horas do que a jornada prevê. Os profissionais de saúde não são desprovidos de sentimentos, temos é demasiadas tragédias em mãos e sabemos de antemão que a nossa capacidade humana é limitada e por muito que queiramos, não fazemos milagres. Morreu um jovem em São José, porque não havia uma equipa de neurocirurgia para operar. 
Imaginem um neurocirurgião. Alguém que estudou muitos anos, que tem que ter uma capacidade técnica, para além da teórica, muitissímo afinada. Afinal, ele corta num local que nos é vital. Sem cérebro, não somos nada, é o nosso disco rígido, o nosso arquivo, é aquele que comanda tudo o resto, cortar um milimetro a mais ou um milimetro a menos pode ser fatal. Agora imaginem a pressão que alguém sente quando sabe que um erro seu custa uma vida. A mão não pode tremer. Isto implica não poder tomar café, provavelmente não fazer umas boas noitadas com amigos... Muitas restrições para poder ter as suas capacidades no auge. Quanto vale a vida pessoal de alguém? ninguém sabe, mas as sucessivas tutelas dizem-nos que valemos pouco, nós os profissionais que abdicamos da nossa vida, pela melhor vida dos outros. Alguns jornalistas ajudam, porque é muito mais fácil, sempre, imputar a culpa em alguém que não está, mas deveria estar num determinado posto, do que tirar as ilações devidas. Deveria estar sim, mas é também um dever de quem sabe que ele lá deveria estar, saber dar-lhe o valor que ele tem por conseguir salvar vidas. De quem é a tal culpa então? 

Quando se exige algo, deve exigir-se a quem de direito. Não se pode exigir a profissionais que andam cansados, desmotivados e tantas vezes mal valorizados que abdiquem da sua vida pessoal, por um ordenado que não paga o investimento pessoal e monetário que fazem na sua formação, para poder saber ainda mais, ou seja, para salvar mais vidas. 

Tenho vários episódios partilháveis, mas este penso que ilustra bem o que aconteceu ao nosso SNS ( o bem mais precioso que a liberdade nos deu). Deve ter sido por alturas do Verão que é das alturas que  nossa população aumenta mais devido à proximidade da praia. Um casal com 2 filhos de férias perto de Odemira. Chegaram-me à triagem pediátrica exaustos e sem paciência. Um sorriso meu ( sempre, é preciso estar muito cansada e garanto-vos, nos últimos anos tenho estado muito) o melhor desbloqueador de "mau feitio" . Conversamos. Finalmente a pergunta: 2 horas sra enfermeira, demorámos 2 horas a chegar aqui. Fomos ao centro de saúde, como nos indicaram na linha da saúde 24 e de lá disseram-nos que teríamos que vir para aqui porque só aqui há pediatra. Foi difícil chegar aqui, tem pouca sinalização e não conhecemos os caminhos. Mas como é que as pessoas deste lugar fazem para ir ao pediatra? Lá lhes expliquei que ter acesso a um pediatra àquela hora só ali, de resto só consultórios privados em dias específicos e horas determinadas. Ironizei, como sempre: as crianças daqui não ficam doentes, ou se ficarem têm que ter dias específicos para isso. Não estamos habituados sra enfermeira, em Lisboa se quisermos temos uma série de hipóteses hospitalares e ainda os privados. 

Pois! 

E o jogo de vida e de morte, como será? 
Digam-me, é isto culpa dos profissionais? Será? Ter que fazer contas à vida dos outros, constantemente, decidir sob pressão quem é que se consegue salvar, é culpa dos profissionais? Coitados dos muitos que têm que carregar às costas, as culpas de não conseguir ser super-herói para fazer mais e melhor. Esta é que é a grande verdade: se os profissionais de saúde não estiverem capacitados para decidir com condições de segurança,  se o valor da sua dedicação não for reconhecido, quem é que vai abdicar da sua própria vida, da sua própria saúde, para salvar a vida de alguém? É que pessoas a morrer num hospital há todos os dias, todos os dias, e quase todos são família de alguém. Enquanto isso alguém decide como gastar o dinheiro, algures sentado num qualquer cadeirão almofadado. E é aqui que a sociedade tem que ser muito mais interventiva, na escolha de quem decide como gastar o dinheiro, e porque decide assim e não nos profissionais, que se "matam", para poder salvar a vida de alguém.

domingo, 20 de dezembro de 2015

My Force

Não podia deixar de ir ver. É o meu imaginário de aventuras. O meu Top Gun galáctico onde entram personagens mirabolantes, desertos e planetas gelados, droides (que nasceram muito antes dos nossos androides modernos) com diversas linguagens próprias - tão bom!!! A história é um "renovelar do mesmo novelo", mais do mesmo. Acredito que quem não gostou ou só apreciou não vá gostar. Mas para quem, como eu, sabe a 1ª saga quase de cor, ou até a 2ª ( que serviu para consolar o gosto) até podiam repetir o guião 500 vezes que eu ia gostar na mesma. Lá está, é a tal estória: quem gosta, gosta sempre! May the Force be with you